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O conhecimento com pernas
25 anos de choque tecnológico no ensino e indústria. 80 empresas da 3.ª vaga criadas em todo o país. É o INESC em resumo

Expresso – 23-12-2005


TUDO começou há 30 anos numa conversa entre três jovens professores universitários «estrangeirados» numa conferência em Nova Iorque. Uns anos mais tarde, dois deles, José Tribolet, doutorado nos Estados Unidos, e Lourenço Fernandes, doutorado em Inglaterra, resolveram criar em 1980 uma estranha organização privada de Investigação & Desenvolvimento (I&D), autónoma da Universidade, que dava pelo nome de baptismo de Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores - INESC. Era uma espécie de «cópia» propositadamente «imperfeita» do modelo anglo-saxónico de produção profissional de I&D virada para resultados com impacto na sociedade - contrastando com o que Tribolet apelidou de «zombies», os clássicos laboratórios nacionais de Estado.


O INESC inaugurou no Portugal pós-25 de Abril a galeria das instituições privadas sem fins lucrativos e de utilidade pública na área da I&D, mas o seu modelo organizacional foi, de um modo simplista, colado à ideia de uma mera interface universitária para a transferência de tecnologia ou a criação de «start-ups» de base tecnológica por professores ou finalistas.

A marca de água do INESC é, assim, resumida pelo fundador: «É uma fábrica de conhecimento com pernas, é um processo de embutir conhecimento num chassis humano». Trocado por miúdos - a missão foi criar, a um ritmo mais acelerado, trabalhadores do conhecimento (usando a expressão do falecido Peter Drucker) para as áreas das telecomunicações e da computação através do entusiasmo pela I&D. Os projectos de I&D por objectivos eram o meio de fabricar esses «agentes de mudança» para a sociedade e o INESC um espaço físico aberto e menos formal para o fazer. Com uma prenda adicional, actuando como um «boomerang» dentro do próprio sistema de ensino superior. E com o FUNDETEC massificou a formação de tecnólogos (os tais técnicos intermédios de cuja falta todos os empresários e gestores se queixam) - cerca de 28000 - especializados nas novas áreas.

A adolescência do INESC provocou um choque tecnológico na altura. Os primeiros projectos criaram «uma cultura do digital» numa indústria e sociedade marcadas então pela cultura da engenharia electromecânica. A criação de uma central telefónica digital com «know how» português levaria, mais tarde, à criação do escritório electrónico nacional, o Elena, implantado nos CTT, uma solução que se internacionalizaria (ver foto). No Porto, o projecto SIFO lançaria a fibra óptica no cenário português, esforço inovador de que os filhos mais recentes são as aplicações de sensores ópticos em áreas tão diferentes como alertas sobre as estruturas edificadas ou o controlo da poluição. Foram dois começos de uma vaga de exemplos do INESC «inside», que daria origem a uma lista de 80 «start-ups» de base tecnológica, de que nomes como a SMD (hoje integrada na ParaRede), a Tecmic e a Nova Base são referências.

Três outros casos convivem connosco diariamente. A investigação no reconhecimento e síntese da fala gerou o 118 com que lidamos diariamente. O XTRaN - comercializado pela Tecmic - ajuda a gerir frotas, como a da transportadora Luís Simões, da PT, Correios de Portugal, Portucel, ACP e Carris. E o MONICAP é uma espécie de «caixa negra» que na nossa frota pesqueira já nos «salvou» na guerra do bacalhau com o Canadá.